Tuesday, January 26, 2010




















Está o aquecedor ligado. Apesar do frio na rua, pinga-lhe o cabelo comprido pelo soalho fora, pequenas gotas traiçoeiras bem se apanhando na sola das pantufas. Foram-lhe oferecidas vários Natais atrás, quando, mesmo à distância, a família ainda o era. Tinha pais, irmãos, um gato. Restam desse tempo o animal e um ódio tremendo aos ovos-moles. Era a única que deles não gostava lá em casa, era a única que não ia no carro a caminho de Aveiro no dia em que a tradicional caixa ‘do primeiro sábado’ ficou por comprar.


Monday, January 25, 2010



























Apregoam os sinos o meio-dia, festeja-se o Verão
não valho mais que minha sombra.

Atravessou paredes e telhados a lentidão dos dias sem luz,
Bruxuleam nas lareiras as muitas sombras em que me tornei.

Sunday, November 29, 2009




















Um litro de água ferve em cinco minutos. Serve o primeiro para pensar na vida e o meio seguinte para dela rir; os restantes passam-se fitando o tecto enquanto não ferve a água com que farei chá. De saqueta, porque não é mau, é fácil, não pode correr mal.

Tuesday, November 24, 2009


















Olvidei o arrogo a querer ser tua.
Na sua ausência, a ilusão
de te pertencer e contigo poder
gastar o tempo e ver o mar.
É metade da transição madrugada,
sinto a hora mais fria e desfaço-me
em ti. Mentes-me, mentes-te. Ninguém
nos diz que é errado correr as dunas;
cansaram-se... pois de novo escureces
e eu, cega, rasgo mais um livro e parto
à procura dessa casa em que vives -
- sempre a mesma, com ela - a errada.

(Repete.)

Tuesday, October 20, 2009























Nasceste no dia errado. Num dia de luto. Não devias ter aparecido, como se fosse a coisa mais natural deste mundo e do outro, de mãos nos bolsos e perguntas curiosas nos passos lentos e ombros despreocupados. Tenho, a contragosto, uma nova canção preferida. Desaparece-me da frente. Não me deixes fugir.

Saturday, October 17, 2009


















Das Viagens Livres e Frequentes pelos Antípodas da Razão

Paper cranes, paper planes!, anuncia. Aquelas roupas velhas e coçadas contam histórias a cada olhar. Ficam-lhe bem, companheiras agradáveis das longas suiças e monóculo riscado. Deambula por entre os passageiros sem se fazer notar, feito extraordinário, ele, que apregoa todos os sonhos da miudagem. Desconheço a sua idade. Ouvi-o cantarolar, uma vez, baixinho, em Português. Nunca mais o vi.

Diz-me porque ardes / Fogo contínuo / os toros / pérfidos da discórdia / quando igualmente / guloso crepitas / a anarquia / da Regente a depôr.


Monday, October 12, 2009



























It's not going to be ok. It never was.
Closing your eyes and pretending it is just proves you are blind.

Wednesday, September 30, 2009